quinta-feira, 13 de novembro de 2008

o espelho

de camisa aberta
em frente a mim mesmo.

o espelho é a prisão profunda
de que somos vigias e presos,

condenados e carcereiros.
e no entanto o homem

é observado, triste alimária
de si mesmo. e no entanto

milhões de olhos o observam
atrás deste – de todos – os espelhos.

e no entanto (otnatne on e)
nada há de mais solitário

que o homem (povo estranho
e ninguém) num espelho.

2

nu, já vai
vestido
em pesada couraça
de nudez: imagem

linguagem
solidez permanente-
mente
líquida

apertar
a visão:
homem
inseto
árvore

num espelho
quantos
estilhaços
cabem?

3

o espelho de um narciso apóstata
reflete nos olhos suas costas.

o anonimato é a fundação
de meu espírito, arco árabe

de meu rosto. sou anônimo
como um cão vira-lata

condecorado com sarna, chagas,
laureado de moscas.

sou mais belo agora, cicatrizando
o tempo na carne a carne nas horas

do que quando fui belo bela criança
que se olhou no espelho de casa

como pássaro bebendo água (ingênuo
de imagem e essência) na poça.

superfície burra, sincera, óbvia,
ser é sermos é seres é: ?

4

o espelho, coisa mágica do vazio,
feito a arte, inventa volumes,

minha imagem é feita de carne
doce e arredia como perfume.

5

também reflito o espelho (eu, outro)
quando não há nada em sua frente.

o espelho, raso um bilhão de abismos,
fez-se a porta para a liberdade –

o espelho espelha a cidade,
o espelho raso como a página –

(vejo minhas vísceras no espelho)
infinito afora, além, por dentro


Rodrigo Madeira

3 comentários:

Tullio Stefan disse...

-contra o prisma desse despertar interior,os espelhos cortam a nossa face,a cartilagem não mais cicatriza um nome,um verbo,uma noite;resta apenas os fragamentos do vidro,não vale montar o quebra cabeça,existe o sol no desenho de cada sombra,remontando o branco encardido da memória,refletindo o nome,o verbo e a noite que não cicatriza o quanto nesses cacos de face,ainda reluz o chão e a insonia de viver.
T.S.

Rita Medusa disse...

o que dizer?
isso é sublime,posto meus cacos em inteiros para contemplar...

Anônimo disse...

sem palavras...já que a poesia pura(como esta), contêm todas elas...